Não consigo ler uma matéria dessa sem sentir o coração, ora apertado, ora partido - em mais pedaços do que havia no cardio...
Se alguém, diante de um relato desse, nada é capaz de sentir; se não é capaz de partilhar a dor e de buscar desesperadamente uma forma de inserção na luta, formas de superação histórica e de comunhão, é porque já deixou a condição de 'humano' e não sabe...
9 comentários:
Realmente, muito triste. Ao mesmo tempo, é bonito ver a lucidez de Luana.
Abraço!
O coração aperta porque esta é a manifestação da famigerada dívida histórica entre brancos e negros, embora ainda haja quem insista em ignorar. O povo negro que foi, por lei, impedido de estudar após a abolição da escravidão e ao qual foi negada praticamente qualquer forma de inserção social, resistiu. O racismo assim, estampado, é só a ponta do iceberg.
É muito triste ser julgado pela cor da sua pele. Eu, assim como Luana, sou negra e sei como é difícil passar por uma situação dessas. Porém, diferente da história de Luana, eu nunca precisei trabalhar para ajudar em casa ou para pagar meus estudos. Faço parte daquela pequena parcela de negros privilegiados, mas, mesmo assim, sofro com racismo. Sempre estudei em escola particular e eu era uma das pouquíssimas crianças negras na minha escola. Um dos principais sofrimentos que passei na infância era não poder usar meu cabelo solto (meu cabelo era cacheado e muito volumoso e não havia a quantidade de produtos que existem agora), diferente das minhas colegas com seus cabelos lisos e ondulados. Hoje em dia, já tenho meus 20 e poucos anos e faço faculdade. Um dia estava voltando pra casa da faculdade (vestindo camisa, calça jeans, tênis, casaco e com minha mochila), fiquei na parte dos fundos do ônibus para facilitar minha saída e reparei, pelo olhar, que um senhor ficou com medo de mim, como se eu fosse uma jovem negra que faz assaltos dentro de ônibus. Este é o racismo institucional descrito por Luana em seu depoimento: mesmo eu estando vestida como qualquer estudante e estando de mochila, a cor da minha pele falou mais alto. A criminalização do racismo e a política de cotas não estão sendo suficientes para combater este mal. Acredito que a maior arma para acabar com o racismo institucional é a educação dentro de casa e nas escolas, porque as crianças estão formando caráter e valores, sendo muito mais fácil ensiná-las do que adolescentes, adultos e idosos.
As definições de estereótipo e preconceito se confundem e misturam em casos como esse, tendo como principais interseções as ideias de "ausência de conhecimento sobre o assunto" e "análise sem fundamento". Se você é uma mulher negra, deve ser apta a exercer apenas certos trabalhos, nada muito além disso; ser aceita em apenas certos ambientes, nada muito além disso; merecedora apenas de boa vontade e filantropia de brancos, nada muito além disso... Mulheres domésticas, não somente "faxineiras", mulheres garis, não somente "lixeiras", dentre tantas outras (não somente negras) exercendo funções de base na nossa cidade merecem, ou melhor, tem tanto valor quanto quaisquer outras profissões... trabalhar como doméstica não é a vergonha, antes fosse... a vergonha está na pequenez de um ser humano que não consegue enxergar multiplicidades, pluralidades e infinidades de outros de sua própria espécie apenas por terem uma cor de pele diferente da sua."Eu não sou vendedora, eu vim comprar aqui", "Eu não sou a babá, essa é minha filha", "Não estou roubando, esse carro é meu","Não faço faxina, eu faço mestrado" são frases sendo ditas dia após dia em vários contextos diferentes para que possamos nos reafirmar como humanos e cérebros além de uma cor na paleta do racismo.
O racismo, infelizmente, está enraizado em nossa cultura. Tal qual um parasita, o preconceito adoece, mas não somente quem o "hospeda" mas também machuca quem está ao redor. Escutei recentemente que "o racismo não existe, o problema é que os negros não param de falar dele", isso saiu da boca de uma mulher branca, que tem um cargo federal, mora em outro estado e vem ao RJ apenas para fazer aulas de culinária. Eu, particularmente, não gostaria de sair por aí culpando as pessoas, mas fica muito difícil viver em uma sociedade não que não tem a menor empatia, que não enxerga que uma minoria é cheia de privilégios enquanto uma grande parcela é marginalizada apenas pela cor de sua pele. Um exemplo triste é que no Brasil, onde muitas mulheres morrem, 71% delas são mulheres negras. É apenas por acaso? Temos muito que desconstruir, aprender e nos desculpar... E temos que começar isso já!
O primeiro passo para mudar a cultura racista que existe SIM em nossa sociedade é os brancos reconhecerem seu lugar de privilégio. Eu sou branca, bem branquela mesmo, e gostaria de compartilhar umas histórias da vida real para reflexão:
- Trabalho com cozinha e tive um dia em que estava tudo especialmente complicado. Corri no supermercado, adentrei a loja falando no celular com uma cliente impossível de agradar. Encontrei a farinha de mandioca que precisava e fui andando em direção aos caixas. A ligação continuava e era um atendimento tão estressante que simplesmente saí pela porta da frente com um quilo de farinha na mão, sem pagar, sem a sacola da rede. Só percebi na esquina, quando desliguei. Eu tinha oficialmente roubado um quilo de farinha. Sem querer, mas roubei. Parei pra me recompor e retornei ao supermercado, pra pagar pelo item. Entrei tranquilamente, passei por dois seguranças, fui direto ao caixa e expliquei à atendente (negra) o que tinha acontecido. Ela demorou uns segundos pra entender e falou que se o segurança me pegasse, eu ia ter problemas. Acho que estava querendo dizer que reprimiam de forma agressiva. Depois riu um riso doído de quem sabia que isso não aconteceria. De quem sabia que ela ou alguém com o mesmo tom de pele não teria chance de cometer esse engano. Já vi várias vezes seguranças de supermercados se comunicando por rádios, perseguindo “suspeitos”. Não eu. Pessoas “suspeitas”.
- Na adolescência, o pessoal da minha escola - alunos de excelente escola particular onde só estudavam jovens privilegiados, praticamente todos brancos - praticava pequenos furtos em lojas de departamento e supermercados. Nuca por necessidade. Nunca ninguém foi pego.
- Tenho um amigo negro que trabalha com cinema e TV. Quando leva câmeras do trabalho pra casa, ele tem um vídeo que já salva na memória do dispositivo, mostrando seu ambiente de trabalho, explicando que aquela é sua profissão, caso seja parado e questionado pela polícia. Ele já precisou usar.
- Estava essa semana no ponto de ônibus a noite numa área nobre. Zero trânsito, quase ninguém na rua. Logo depois de mim chegou um rapaz negro com camisa de time de futebol e boné. Ele fez sinal para os mesmos três ônibus que eu. Os dois primeiros vinham em baixa velocidade e estávamos no ponto correto, mas eles passaram direto. Embarcamos no terceiro.
MANUELLA COELHO DE SENNA
É complicado eu sentir que este relato me ofende sendo eu branca. Porém graças a minha estrutura familiar e a construção do meu senso crítico e senso humano, me ofende e me preocupa muito, provavelmente por se tratar de uma mulher. Me preocupa saber que há 500 anos os negros aqui presentes até hoje são vistos ou tratados com a mesma tolerância do séc XVI. São violentados, maltratados e deixados a propria sorte. Se tiver sorte alcança a escola, caso contrário é perdido para o tráfico. Não se tem opções nem oportunidades. Nascem condenados. A favela é produto dessa maldade comedida. Maldade pela baixa qualidade de vida, pela dificuldade de crescer e se construir uma pessoa saudável, maldade pela exposição diária à violência desmedida, humilhação constante para chegar e sair de casa, maldade pelo abandono social e maldade pela baixa perspectiva de vida comparada a um indivíduo branco.
Particularmente a exposição das jovens mulheres negras me afeta mais. São maioria nas estatísticas de evasão escolar, gravidez indesejada na juventude, estupro, feminicídio e até lideram o ranking das doenças crônicas. Estão à deriva do descaso público, estão sem voz e sem espaço. Contudo, são estas mulheres, negras ou não, mas que estão à margem da sociedade capitalista patriarcal que levam suas famílias nas costas e com garras. Sempre trabalhando muito, se esforçando para construir um lar, sendo mãe e pai, sendo tratadas como objeto ou serviço, insistindo na educação dos filhos, batalhando por uma vida mais digna mas, ainda assim, são estas mulheres as que mais sofrem e perdem suas próprias batalhas diariamente.
Me assusta no caso o diálogo ter acontecido de mulher para outra mulher. Mulheres de cores diferentes, vidas diferentes e idades bem diferentes. Mulheres que não pisaram no mesmo chão, que não se alimentam da mesma comida e nem vestem as mesmas roupas. E ainda assim são mulheres iguais. Mulheres que sentem preocupações em comum, talvez. Mulheres que tomariam decisões cotidianas parecidas. Mulheres que já viveram experiências emocionais similares como amor, perda, saudade, conflitos familiares e etc. O diferente está na forma como enxergamos as coisas e na forma como elas são construídas dentro de nós.
Talvez a senhora que perguntou à mestranda se ela faz faxina tivesse a ideia de estar fazendo o bem, praticando uma boa ação ao oferecer trabalho a uma mulher. No Brasil onde essa senhora cresceu e viveu pouca coisa mudou em relação aos negros ou à periferia. Hoje, eu, jovem, vejo pequenas tranformações que me alegram mas que ainda parecem uma utopia. Vejo jovens negros e pobres nas universidades cada vez em maior quantidade, encontro professores e profissionais negros que também me representam cada vez mais, percebo como a cultura afro a cada dia ganha mais espaço, representatividade e apoio. Me alegro com noticias sobre novos pesquisadores científicos, com destaque acadêmico; me alegro também com negros na política assim como quando assisto negros na televisão, com papéis de personagens importantes ou protagonistas e não representando um bandido ou usuário de droga.
A verdade é que esta senhora também é produto da sociedade como um indivíduo alienado, sem atual concepção da mudanças sociais que estão ocorrendo graças a luta incessante da minoria negra, de periferia e jovem que está árdua por transformações e justiça.
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