terça-feira, 4 de setembro de 2018

Somos todos Bendengó!

Com a alma em cinzas e sob impacto de mais um golpe funesto e inominável à memória social, ao passado, à história, à Clio, à Mnemosýne, mãe das Musas, ao que de mais sublime o humano é capaz de erguer, resolvi escrever um pouco. Ainda cato palavras. Mas as palavras estão quentes, queimam-me a língua e me escapam, como labaredas.
Mas não, não quero me deter no que senti - e tantos sentiram - enquanto um nosso templo das Musas [mouseion] ardia, nossas peles ardiam, dissolvendo-se como um fóssil de 80 milhões de anos, como papiros milenares, como livros em tantas fogueiras ao longo da história, apagando-se como Luzia, que atravessou cerca de 13000 anos sem que lhe conseguissem roubar a luz. Todavia, por efeito de um golpe, um golpe de má-sorte, se é que me compreendem, Luzia não luz mais - ou, ao contrário, há de luzir ainda mais, em nossa memória, imaginação e vontade de lutar.
Sim, quero falar de Bendengó, o meteorito Bendengó, imensa pedra de raio que atravessou o tempo e o espaço sideral, os céus, a atmosfera terrestre e foi encontrado por um menino negro [um erê!], no sertão da Bahia, no final do século XVIII. Na tentativa de transportá-lo para a capital, rolou ribanceira e foi dar no leito de um rio. Ficou por lá por mais de cem anos. No final do século XIX, Pedro II ordenou uma complexa operação de engenharia para trazê-lo ao Museu Nacional, por via férrea, onde está até hoje. Sim, até hoje, pois Bendengó SOBREVIVEU ao atentado golpista.
Para nós, que estamos na resistência e na luta pela emancipação humana, não tenho dúvida, é um sinal: Somos todos Bendengó! A história não acabou, o passado não morreu, nossos ancestrais estão presentes, a luta continua!

nota: para quem é de Asè e cultua a ancestralidade, a mística e a memória, essa história está repleta de conexões simbólicas e sinais, a animar uma resistência secular. Somos todos Bendengó!

publicado em no Editorial de Mnemosine Vol.14, nº1, p. 1-2 (2018)