Produção
social hodierna de sofrimento mental
O
aumento progressivo do número de casos de ‘loucura’ entre a população urbana europeia
a partir do século XVI decerto guarda relação com o violento êxodo rural que
caracterizou a passagem do modo de produção feudal ao capitalista, marcada pela
desapropriação do lugar de cultivo, pela perda do chão.
A
desterritorialização a que foi submetida grande parcela da população camponesa
deve ter sido devastadora do ponto de vista psicossocial.
Do
ponto de vista econômico e social, os efeitos foram óbvios e notórios, haja
vista o aumento significativo de pessoas sem terra, sem ocupação (logo denominados
‘desempregados’, força de trabalho potencial sem emprego, sem vaga no mercado
de trabalho capitalista), mendigos e biscateiros, entre outros pequenos delinquentes
que passam a grassar no espaço urbano, de forma ainda mais expressiva a partir
da Revolução Industrial.
A
passagem – forçada, porém por muitos também ‘desejada’, por efeito da
propaganda burguesa que ‘anunciava’ a libertação de vínculos feudais que não
mais se sustentavam e acenava com uma nova ‘esperança’ para os pobres – do tempo
da produção rural para o tempo da produção urbana industrial (tempo histórico
do capital) deve ter sido, sem trocadilho, avassaladora...
É
preciso pensar a produção social hodierna de sofrimento mental em relação com a
4ª Revolução Industrial (amplo emprego da robótica; convergência de tecnologias
digitais, físicas e biológicas; império da engenharia genética e da neurotecnologia
etc), que se faz acompanhar de violenta “desapropriação”, senso de obsolescência
da força de trabalho e espoliação de direitos trabalhistas, sociais e humanos –
enfim, uma ainda mais intensa desterritorialização que se dá fortemente carregada
de alienação simbólica, subjetiva, imaterial. O emprego aqui da palavra ‘carregada’
expressa bem o peso dos grandes meios privados de produção da comunicação social
e das redes sociais manipuladas por grupos de interesse econômico nesse
processo.
A
tarefa dos que pensam e lidam com processos de subjetivação e com o sofrimento
psíquico será cada vez mais árdua e terá de ser cuidadosamente organizada ética
e politicamente, sob pena de sermos reduzidos, num futuro não muito distante e
de certo modo já muito presente, perdoem-me a metáfora que aliás não está tão ‘fora’
assim, a elementos descartáveis de uma grande rede a operar em ‘nuvem’.
A
nova ofensiva neoliberal em curso, perceptível de forma dramática em nosso
país, está aí a preparar o terreno.
Alexandre Magno Teixeira de Carvalho
apresentado no V Congresso Brasileiro de Psicologia: ciência e profissão, 2018
apresentado no V Congresso Brasileiro de Psicologia: ciência e profissão, 2018