terça-feira, 22 de maio de 2018


Produção social hodierna de sofrimento mental

O aumento progressivo do número de casos de ‘loucura’ entre a população urbana europeia a partir do século XVI decerto guarda relação com o violento êxodo rural que caracterizou a passagem do modo de produção feudal ao capitalista, marcada pela desapropriação do lugar de cultivo, pela perda do chão.

A desterritorialização a que foi submetida grande parcela da população camponesa deve ter sido devastadora do ponto de vista psicossocial.

Do ponto de vista econômico e social, os efeitos foram óbvios e notórios, haja vista o aumento significativo de pessoas sem terra, sem ocupação (logo denominados ‘desempregados’, força de trabalho potencial sem emprego, sem vaga no mercado de trabalho capitalista), mendigos e biscateiros, entre outros pequenos delinquentes que passam a grassar no espaço urbano, de forma ainda mais expressiva a partir da Revolução Industrial.

A passagem – forçada, porém por muitos também ‘desejada’, por efeito da propaganda burguesa que ‘anunciava’ a libertação de vínculos feudais que não mais se sustentavam e acenava com uma nova ‘esperança’ para os pobres – do tempo da produção rural para o tempo da produção urbana industrial (tempo histórico do capital) deve ter sido, sem trocadilho, avassaladora...

É preciso pensar a produção social hodierna de sofrimento mental em relação com a 4ª Revolução Industrial (amplo emprego da robótica; convergência de tecnologias digitais, físicas e biológicas; império da engenharia genética e da neurotecnologia etc), que se faz acompanhar de violenta “desapropriação”, senso de obsolescência da força de trabalho e espoliação de direitos trabalhistas, sociais e humanos – enfim, uma ainda mais intensa desterritorialização que se dá fortemente carregada de alienação simbólica, subjetiva, imaterial. O emprego aqui da palavra ‘carregada’ expressa bem o peso dos grandes meios privados de produção da comunicação social e das redes sociais manipuladas por grupos de interesse econômico nesse processo.

A tarefa dos que pensam e lidam com processos de subjetivação e com o sofrimento psíquico será cada vez mais árdua e terá de ser cuidadosamente organizada ética e politicamente, sob pena de sermos reduzidos, num futuro não muito distante e de certo modo já muito presente, perdoem-me a metáfora que aliás não está tão ‘fora’ assim, a elementos descartáveis de uma grande rede a operar em ‘nuvem’.

A nova ofensiva neoliberal em curso, perceptível de forma dramática em nosso país, está aí a preparar o terreno.

Alexandre Magno Teixeira de Carvalho
apresentado no V Congresso Brasileiro de Psicologia: ciência e profissão, 2018

6 comentários:

Sérgio Domingues disse...

Uma "desterritorialização" carregada de alienação simbólica, subjetiva, imaterial. Perfeito! E assustador

Clara dos Anjos disse...

A mudança da produção feudal para a capitalista foi criada por homens e está nos levando para um caminho de excessos que o homem e o meio ambiente não conseguem suportar. As 24 horas que cabem em um dia são, muitas vezes, insuficientes para as tarefas diárias. Os produtos que compramos são programados para durarem pouco tempo para adquirirmos ainda mais. As demandas de produção e consumo são crescentes e os recursos são escassos. As redes sociais mostram, na maioria das vezes, uma imagem de felicidade constante, fazendo as pessoas, principalmente adolescentes, se sentirem insuficientes por não terem “aquela vida”. Daí surge com força os sofrimentos mentais como ansiedade, depressão, pânico, entre outros, porque não estamos conseguindo lidar com realidade social, econômica, política, educacional, trabalhista etc na qual vivemos. Entre esses problemas, um exemplo importante é falar dos malefícios do alto uso de tecnologias, em consequência dessa realidade moderna: os cientistas dizem que a sobrecarga de informações às quais o cérebro é submetido está afetando a capacidade de foco das pessoas, está causando modificações no cérebro humano e não se sabe as consequências disso futuramente. Desse modo, a produção hodierna capitalista não foge da veracidade de uma antiga frase: tudo em excesso faz mal.

Andreza Barros disse...

A perda do chão e a instabilidade financeira já afetam muito a subjetividade do trabalhador, adicionado ao agravantes de o tempo literalmente valer dinheiro. Onde quem gasta tempo ganha dinheiro e quem gasta dinheiro ganha tempo, vivemos sempre querendo comprar o tempo fazendo economias e abrindo mão de coisas necessárias a nossa existência também, fora o trabalho para o sustento. Logo, considero a relação tempo/dinheiro desigual sobretudo para quem não tem ambos, o trabalhador.

Eduarda Ariel disse...

Essa produção exacerbada que o capitalismo promove está levando a sociedade à um caos programado. Vemos muito claramente que através desse sistema se intensifica as desigualdades sociais, a degradação ambiental, divergências entre capital e trabalho e até mesmo a extinção dos valores humanos... Claro, o capitalismo tem a grande capacidade de geração de riquezas e também proporciona contribuição econômica, tecnológica e etc. Mas será que não estamos acelerados demais? Não estamos consumindo demais? Essa chuva de "novidades" está prejudicando o ser humano de uma forma irreversível, estamos trocando a vida por coisas que não tem nem uma durabilidade satisfatória, estamos em busca de uma vida que não é real, estamos perdendo a sensibilidade pelas coisas simples!!! Para melhorar essa situação, não temos que voltar ao tempo das pedras, apenas precisamos nos conscientizar do que realmente necessário, fazer apenas o que estiver ao nosso alcance e aceitar que nem tudo nos convém. Se não tomarmos uma atitude logo, vamos explodir por conta de tantos excessos.

Unknown disse...

MANUELLA COELHO DE SENNA
''A moderna sociedade burguesa, que surgiu do declínio da sociedade feudal, não aboliu as contradições de classe. Ela apenas colocou novas classes, novas condições de opressão e novas formas de lutas no lugar das antigas.
Toda a sociedade se divide, cada vez mais, em dois campos inimigos, em duas grandes classes diretamente opostas: a burguesia e proletariado.
A grande industria criou o mercado mundial, preparado pela descoberta da América. O mercado mundial promoveu um desenvolvimento incomensurável do comércio, da navegação e das comunicações. Esse desenvolvimento, por sua vez, voltou a impulsionar a expansão da indústria. E na mesma medida em que indústria, comércio, navegação e estradas de ferro se expandiram, desenvolvia-se a burguesia, os capitais se multiplicavam e, com isso, todas as classes oriundas da Idade Média passavam a um segundo plano.
Vemos, assim, como a burguesia moderna é ela mesma o produto de um longo processo, moldado por uma série de transformações nas formas de produção e circulação. [...]
A burguesia desemprenhou na história um papel altamente revolucionário.
Onde passou a dominar, destruiu as relações feudais, patriarcais e idílicas. Dissolveu a dignidade pessoal no valor de troca e substituiu as muitas liberdades, conquistadas e decretadas, por uma determinada liberdade, a de comércio. Em uma palavra, no lugar da exploração encoberta por ilusões religiosas e políticas ela colocou uma exploração aberta, desavergonhada, direta e seca.
A burguesia despiu de sua auréola todas as atividades veneráveis, até agora considerando dignas de pudor piedoso. Transformou o médico, o jurista, o sacerdote, o poeta e o homem de ciência em trabalhadores assalariados. A burguesia rasgou o véu comovente e sentimental do relacionamento familiar e o reduziu a uma relação puramente monetária.
A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção, portanto as relações de produção, e por conseguinte todas as relações sociais.'' Karl Marx, Friedrich Engels: Manifesto do Partido Comunista, 1848.

Unknown disse...

A produção de sofrimento, a desestabilização emocional e a anulação do senso de pertencimento são armas poderosas para a geração de "capital humano". A nossa sociedade é resultante da força de trabalho de pessoas em sofrimento, expatriadas à força. Se por um lado o sofrimento psíquico pode gerar força de trabalho, por outro, o trabalho nos moldes atuais também gera sofrimento. As relações de trabalho adoecidas em que o trabalhador não é valorizado, não recebe salário apropriado e não se sente capaz de produzir valor são forças destrutivas. Acredito que possa partir de mim um movimento anti-sofrimento, por simplesmente me propor a fazer o exercício de entender o meu propósito no mundo e de não aceitar que o meu trabalho exerça força destrutiva sobre mim.

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