60
anos do assassinato de Wilhelm Reich
publicado em http://www.mnemosine.com.br/estatico/atual.html, seção Biografia,
revista do Departamento de Psicologia Social e Institucional do Instituto de Psicologia/UERJ
publicado em http://www.mnemosine.com.br/estatico/atual.html, seção Biografia,
revista do Departamento de Psicologia Social e Institucional do Instituto de Psicologia/UERJ
Há 60 anos, aos 60
anos, em 3 de novembro de 1957, parou de bater o coração de um homem que amei
profundamente, embora eu tenha nascido 6 anos após a sua morte.
Chorei com ele
quando da morte trágica de sua mãe, tremi quando ele se apresentou para cumprir
o serviço militar na I Guerra Mundial, senti cada centímetro do seu desamparo,
amores angustiados, a relação respeitosa e ambígua com Freud. Minhas mãos queimaram
com seus livros em chamas nas fogueiras do Reich – que ironia significante
essas cinco letras – e nos incineradores macarthistas. Senti a dor do exílio,
judeu, comunista, psicanalista, excomungado à esquerda e à direita; à esquerda,
porque ousou criticar o Partido Comunista Alemão quando da pífia reação diante
do ataque dos nazistas e porque era judeu e psicanalista; à direita
psicanalista, porque chamaria a atenção do Reich – que repetição significante
irônica e dramática – e porque era comunista. Sexpol. Para onde
iria? Dinamarca, Suécia, Noruega. De volta à Dinamarca. Narrenschiff.
Sem ancoradouro. Pensava estar no porto e de novo era lançado a alto-mar.
Acreditou, como Marx e Engels, que a América seria dos trabalhadores e sentiu,
na pele, o calor das fornalhas inquisitórias e o frio das grades de uma cadeia.
Contudo, viveu a
vida como poucos. Com seus bíons, seu orgone, seus orgasmos verdadeiros. Amou
cada bebê que com ele dobrava o olhar. Sentiu a pulsação do vivo – da ameba ao
humano – e não recuou diante da morte que, desde a infância, o espreitava. Mas
tomou tanta pancada, que acabou por reconhecer a pulsão de morte – DOR, Deadly
ORgone. Aceitou essa derrota, pois sabia – e defendia – que não se trata de
contrariar infantilmente a natureza, como o fazem falsos cientistas e a
produção capitalista.
Generoso como
poucos. Fumei alguns charutos com ele, em silêncio, ao pôr-do-sol. A sua
autobiografia tem um lapso de memória: ele não enfrentou sozinho aquele tira na
fila do Teatro Popular (Volkstheater). Eu estava lá, quase fomos
expulsos e presos juntos, mas ainda deu tempo de assistir aquela peça pobre de
Müller sobre a vida de uma prostituta. Também recusamos, juntos, fazer um
fraque no alfaiate. Não, nunca usaremos um fraque!
Olhávamos na mesma
direção e fazíamos planos de pesquisa. Uma nova descoberta científica sempre
aguardava a oportunidade de revolucionar, de levar a humanidade a um novo
patamar, mais alto. Irônico, como Marx, dizia aos jovens cientistas
norte-americanos que seus microscópios deveriam ser tão bons quanto os carros
que sonhavam possuir. Como Virchow, tinha um olho na célula e outro na questão
social. Mas queria mais: um olho na célula, outro no espaço. Espaço céu, espaço
mar. Thalassa, de Ferenczi.
Você retornou, meu
velho Willy, você retornou. Pode correr em direção às ondas, como um grego nu e
ferido depois de meses vagando no deserto, a gritar Thalassa! Thalassa!
Vamos nos encontrar, um
dia, no Grande Oceano. A Grande Mãe-Mulher que você tanto queria, estará lá,
contigo. Vamos nos encontrar, tenho certeza disso, mas não agora, não agora...
Alexandre Magno Teixeira de Carvalho