sexta-feira, 3 de novembro de 2017

60 anos do assassinato de Wilhelm Reich
                                                                  
publicado em http://www.mnemosine.com.br/estatico/atual.html, seção Biografia,
revista do Departamento de Psicologia Social e Institucional do Instituto de Psicologia/UERJ


         Há 60 anos, aos 60 anos, em 3 de novembro de 1957, parou de bater o coração de um homem que amei profundamente, embora eu tenha nascido 6 anos após a sua morte.
        Chorei com ele quando da morte trágica de sua mãe, tremi quando ele se apresentou para cumprir o serviço militar na I Guerra Mundial, senti cada centímetro do seu desamparo, amores angustiados, a relação respeitosa e ambígua com Freud. Minhas mãos queimaram com seus livros em chamas nas fogueiras do Reich – que ironia significante essas cinco letras – e nos incineradores macarthistas. Senti a dor do exílio, judeu, comunista, psicanalista, excomungado à esquerda e à direita; à esquerda, porque ousou criticar o Partido Comunista Alemão quando da pífia reação diante do ataque dos nazistas e porque era judeu e psicanalista; à direita psicanalista, porque chamaria a atenção do Reich – que repetição significante irônica e dramática – e porque era comunista. Sexpol. Para onde iria? Dinamarca, Suécia, Noruega. De volta à Dinamarca. Narrenschiff. Sem ancoradouro. Pensava estar no porto e de novo era lançado a alto-mar. Acreditou, como Marx e Engels, que a América seria dos trabalhadores e sentiu, na pele, o calor das fornalhas inquisitórias e o frio das grades de uma cadeia.

       Contudo, viveu a vida como poucos. Com seus bíons, seu orgone, seus orgasmos verdadeiros. Amou cada bebê que com ele dobrava o olhar. Sentiu a pulsação do vivo – da ameba ao humano – e não recuou diante da morte que, desde a infância, o espreitava. Mas tomou tanta pancada, que acabou por reconhecer a pulsão de morte – DORDeadly ORgone. Aceitou essa derrota, pois sabia – e defendia – que não se trata de contrariar infantilmente a natureza, como o fazem falsos cientistas e a produção capitalista.

         Generoso como poucos. Fumei alguns charutos com ele, em silêncio, ao pôr-do-sol. A sua autobiografia tem um lapso de memória: ele não enfrentou sozinho aquele tira na fila do Teatro Popular (Volkstheater). Eu estava lá, quase fomos expulsos e presos juntos, mas ainda deu tempo de assistir aquela peça pobre de Müller sobre a vida de uma prostituta. Também recusamos, juntos, fazer um fraque no alfaiate. Não, nunca usaremos um fraque!

         Olhávamos na mesma direção e fazíamos planos de pesquisa. Uma nova descoberta científica sempre aguardava a oportunidade de revolucionar, de levar a humanidade a um novo patamar, mais alto. Irônico, como Marx, dizia aos jovens cientistas norte-americanos que seus microscópios deveriam ser tão bons quanto os carros que sonhavam possuir. Como Virchow, tinha um olho na célula e outro na questão social. Mas queria mais: um olho na célula, outro no espaço. Espaço céu, espaço mar. Thalassa, de Ferenczi.
         Você retornou, meu velho Willy, você retornou. Pode correr em direção às ondas, como um grego nu e ferido depois de meses vagando no deserto, a gritar Thalassa! Thalassa!

          Vamos nos encontrar, um dia, no Grande Oceano. A Grande Mãe-Mulher que você tanto queria, estará lá, contigo. Vamos nos encontrar, tenho certeza disso, mas não agora, não agora...
                
                                                                Alexandre Magno Teixeira de Carvalho
  

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

“A pétala da primeira palavra que, um dia, 
o filho deixará cair, dizendo-a”
[Antonio Carlos Villaça]

         O tempo implacável passa, impávido, para as nossas células. Passa, incólume, por entre as células. O tempo histórico do capital nos tritura, provoca percepções estranhas nas entranhas em que se apercebe o tempo, a passagem do tempo.
         É um tempo entre.
         Prenhe de si mesmo, o tempo inteiro narcísico, e de mais nada. Da prenhez do nada, nada pode nascer. Como negar o nada? Como negar o nada para que dele uma pétala nasça? E da pétala uma gota de orvalho? E da gota de orvalho uma chuva de verão? E da chuva de verão nossos cabelos molhados e o rosto voltado para o alto com um sorriso de bebê que amamentou feliz estampado?
         Alto, mais alto, um pouco mais, plus... não, não digo o Plus ultra do colonizador espanhol; também não é o mais-valor do capital... terei sido eu, desde sempre, o idiota antipragmático para quem a palavra ultramar significa apenas e tão somente além-mar? Ao mar, despidos de naus!
         O que eu e você, habitantes e parasitas raramente saprófitos desta crosta terrestre há mais de meio século, temos a fazer? O que fazer diante da mãe que não há mais a plantar a flor da primeira palavra? O que fazer com essas máquinas eletrônicas luminosas e telúricas (porque feitas de minérios, de entranhas da Terra) que nos cegam a ponto de não percebermos que tudo que cai em nossas mãos é telúrico? O que fazer desta Terra?


         Cento e quinze anos depois, a pergunta rodou mundo. O mundo mudou, o capital cresceu para dentro a dizimar o fora todo dentro. Por entre o que resta, a questão permanece: o que fazer?

Alexandre MT de Carvalho
publicado em https://www.circulodegiz.org/post/a-p%C3%A9tala-da-primeira-palavra