sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Obsolescência e subjetividade

A obsolescência programada pelo capital afeta as relações sociais de produção. Se toda mercadoria deve ser rapidamente descartada (para o capital hodierno, pouco importa o seu valor de uso e a queda em desuso) para que uma nova seja adquirida no mercado, o mesmo passa a se dar com a mercadoria força de trabalho (FT): a mercadoria FT também passa a ser 'feita' para não durar, rapidamente se torna obsoleta (descartada ou adoecida, às vezes mortalmente) por efeito de uma exploração do trabalho que se torna cada vez mais sofisticada. No estádio atual do MPC, as coisas são feitas para não durarem. Essa operação (modus operandi) rebate em todas as esferas da vida social, não somente na relação emprego (relação social que define um comprador que consome a mercadoria FT e um vendedor que se sujeita alienar). Com os rebatimentos na subjetividade, assim se dá também com as relações afetivas (amizades, namoros, diferentes formas de relações sexuais etc.).
A aceleração do processo de produção-circulação-consumo aumenta vertiginosamente a velocidade e diminui a duração do tempo no cotidiano (efeito do tempo histórico do capital). Quem controla o tempo, hoje, é o capital.
Na década de 1970, por exemplo, o telefone era fixo, era também um objeto de decoração, era durável, era caro. Hoje, é móvel, descartável e relativamente barato. Digo relativamente barato porque não é de fato tão mais barato do que o telefone do passado recente, pois os interesses do mercado financeiro cresceram na transação de tal forma que foi elevada a potência do fetiche do financiamento – “Baratinho, tanto por mês”; dizem os incautos. Portanto, tal qual os telefones (o primeiro telefone de minha mãe, esperando mudo e impávido sobre a mesinha por meses a fio a chegada da linha, do tom de discar), a FT tornou-se ainda mais móvel, descartável e barata (absoluta e relativamente).
E assim nos tornamos, sem nos darmos conta, em pouco mais de três décadas, por um processo de aprofundamento da obsolescência, seres humanos profundamente marcados pela mobilidade do capital e violentamente significados pelo descartável (300717).

Alexandre MT de Carvalho

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Sobre CÉUS (de Wajdi Mouawad, direção de Aderbal Freire Filho)

            Sobre CÉUS (de Wajdi Mouawad, direção de Aderbal Freire Filho)

        Dédalo estraçalhado, explodido. Da obra do arquiteto, da obra de arte que oprime, poucos acham a saída. Teseu, com o fio do amor de Ariadne e Dédalo-Ícaro com “suas asas de pombo / coladas às costas com mel e dendê / aguentam por um fio”. Mas não há mais heróis dispostos a nos mostrar a saída e a pagar as penas que o trabalho de fuga do labirinto impõe: enfrentar o Minotauro é fácil perto da imensidão do Oceano e da angústia da queda sem fim de Egeu, o pai amado. O esquecimento das velas brancas desfraldadas não exime o herói da dura pena. Dédalo até sabe o caminho, há somente um: pelo alto. Mas não tão alto, Ícaro, não tão alto, adverte o Pai inutilmente. É tarde, tarde demais. Caiu Ícaro escadaria abaixo partindo-se em mais pedaços do que houvera no vaso. Partiu-se, descuidado. Teseu e Dédalo e a Moira e a dor infinita do alto, a angústia do abismo [“deus ao mar o abysmo e o perigo deu / Mas nelle é que espelhou o céu”], do mar em que Egeu mergulha; do espelho em que Egeu, ainda sem nome, nelle se olha e não a imagem do filho descuidado. Teseu e Ícaro. Destinos opostos. Teseu condenado à beira do abismo. Teseu democrata. Ícaro anarquista, de asas grandes e cera quente. No teatro romano o ator sincero atua sem cera. Não chega a decolar. A decolagem é o prenúncio da queda no incomensurável abysmo do sem fim. Dédalo quer sair de dédalo e de Dédalo. Dédalo sabe voar baixo – mas, a troco de quê? Dédalo criou a obra bela e grandiosa, a obra violentamente opressiva, a obra da qual se pode sair pelo alto. Mas, cuidado com a linha de fuga. Dédalo traçou a hipotenusa. Ícaro, a vertical do cateto. A liberdade de Ícaro não cabe dentro do triângulo de Pitágoras, cuja área é metade do quadrado; quadrado dividido ao meio, pela hipotenusa partido – e ao mesmo tempo ligado. Ícaro cai. Egeu dá nome ao mar abysmo da angústia que ainda não é a de Pessoa. É outra angústia, pois a angústia é filha do tempo. É humana, portanto, histórica. A angústia não se repete no tempo e nos tempos, mas todo e qualquer humano a reconhece ou pressente, ainda que negue: é o momento que precede o cair no vazio infinito, o dissolver-se na água, o explodir-se de tão cheio. O explodir-se de tão cheio! Depois de milênios de criação e opressão e de séculos de destruição criativa e criação destrutiva exponencial, não há mais saída pela linha tênue que nos ligaria à saída. Não há saída fora do labirinto. Não há fora. Ícaro sabia. O pai ou o filho, um dos dois morre. A amada tem em suas mãos o novelo que leva à saída. Ela doa porque ama. Mas não há saída. O labirinto é do tamanho do mundo [“grandes são os desertos / e tudo é deserto”]. É o Processo de Kafka: o labirinto de paredes duras, sem continência, sem dobra, não tem fim, nem mesmo fora dele. Josef K se perde na angústia, sem linha e sem asas (nem mesmo as de um Samsa metamorfoseado). Sem saída. Sem crime. Saída perdida. Mouawad explode toda a obra, dentro e fora do labirinto-processo sufocante, sem dobra. A explosão libera o ar de sua cadeia monótona e esmagadora, mas não há mais heróis. Apenas reféns e algozes, numa repetição doentia, compulsiva, compulsivamente histórica, historicamente compulsiva. Mouawad quer explodir tudo isso, quer uma síntese que recrie sem destruir a memória, mas sabe que ela foge na linha do horizonte, como um cordão umbilical definitivamente cortado.  Mouawad quer, como nós, respirar.


Alexandre Magno Teixeira de Carvalho, 07/10/16, antes de acordar.

Tempo reificado (ou Mészáros e Galeano contra a vida passa em velocidade 4G)

Tempo reificado (ou Mészáros e Galeano contra "a vida passa em velocidade 4G")

O tempo que te roubam
Não é achado
É irremediavelmente perdido
One way
Não tem retorno
O tempo que te roubam
Subtraem de muitas maneiras
Tem por destino a carteira
De ações, de crédito, do bolso do paletó
Do outro, do investidor, do patrão
O tempo que te roubam
Não é só teu – você nem sabia
É da história
Deveria ser de quem trabalha
Do filho de quem trabalha
Do amor de quem trabalha
Do sonho de quem trabalha
Do desejo de quem trabalha
Da verve de quem trabalha
Da luta de quem trabalha
Do livro de quem trabalha
Da cama, do leito, da mesa
Da árvore, do debaixo da árvore
Da beira do rio, do rio, do mar
Da praia, da mata, da montanha
De quem trabalha
Um fruto de quem trabalha
Um fruto lento e espesso
Um fruto com gosto
Um fruto sem veneno
Um fruto lento
Se desejado
Um fruto mais espesso
Se compartido
Um fruto ainda mais, mais
Se de quem trabalha é o fruto
Da humanidade é o fruto
O fruto é ralo
O tempo é escasso
Quando o trabalho do tempo
O tempo do trabalho
E o tempo do não trabalho
É todo comprado barato
Consumido até o talo
Saldo, saldão, liquidação
Líquida ação
Liquida ação
O liquidificador do patrão
Patrão, saldo, tudo mais barato
Tudo mais vagabundo
Tudo mais rápido
Tudo mais degradado
Veneno consumido
Simbolicamente, concretamente
Até o fazer nada:
Para fazer nada é preciso dinheiro
- Precisamos ganhar mais dinheiro!
Vamos transformar em mais dinheiro
O trabalho do homem
E da mulher
E da criança
De suas forças vamos tirar o tempo
E o trabalho se enfraquece sem o
Tempo... O tempo do trabalho
O tempo histórico
Aprisionado, encarcerado, apodrecido, reproduzido
Movimentado
F = m.a
Aceleração = força sobre a massa
Aumentá-la até tender ao infinito
Pesar sobre a massa
Acelerar as massas...
Empurrá-las rápido abismo abaixo
Em = Ec + Ep
À beira do abismo
A energia potencial é máxima
Para o capital
Mas o capital não quer só a potência
Quer consumir a força
À força
Acelerá-la mais, mais, mais
Quer a energia cinética máxima
A energia cinética máxima que
Um corpo adquire quando chega
Ao chão depois de um voo cego livre
Um cego livre
Cegos e livres
Corpos no chão
Velocidade máxima
Potencial mínimo
Velocidade zero
Tempo arrasado

Time of death.

A história faz o tempo
A humanidade faz a história

O tempo da história tem peso
Nós o carregamos, havemos de
Carrega-lo
Mas não nas tomadas do capital
Velocidade da luz
Nossa matéria não é dinheiro
E = m.c²
O capital não cessa? O capital não
Para? O capital acelera
g, 2g, 3g... 4G!
Mais, plus, diferencial, valor
Quem dá mais? Quem dá mais?
Quem vai levar? Qual é o preço? Qual é o lucro?
Não, não estou à venda, obrigado.
Mentira. Sou posto à venda.
Puseram a venda
Meus olhos não veem
O
Abismo a velocidade
Em que me aproximo do abismo
A estupidez de nossa queda.
Não faz sentido.
Faz-se d’, mas sentido não se faz.
Valor é lucro, nada mais.
Nada mal, diz o senhor.
Sempre foi assim, sempre será
Quem é que diz?
Não faz sentido
Don’t make sense
Make sense
Vamos reconstruir o sentido
Das coisas
Vamos retomar nossas
Palavras
Vamos salvar nossas vidas
Vamos recuperar nossas almas
Retomar as ideias, fazê-las concretas
Nossos corpos
Vamos expropriar os donos do tempo que nos foi
Expropriado
Tomá-lo de volta.
Mas ele não volta.
Então vamos refazê-lo
Vamos fazer história.


Por Alexandre M T de Carvalho, novembro de 2014


Texto com texto


o texto
o contexto
o contexto é
o texto é o texto do contexto
o contexto sem texto é
o contexto apesar do texto é
o texto fala do contexto
o contexto não é o que diz o texto
o texto do contexto não é o contexto
o texto é contexto sem
não há texto sem contexto
ao texto falta o com
o contexto é texto
com tudo aquilo que estando junto
escapa ao texto.

Alexandre Magno Teixeira de Carvalho



(2007?)