quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Uma dose homeopática de Benjamin, para reflexão...

“Quem esquece séculos de experiências 
jamais obterá uma verdadeira autoconsciência histórica 
baseada na consciência presente das experiências históricas, 
em seus reflexos, em seu controle [movimento] ininterrupto” 

“O terror deve ser algo similar à psicose (...) 
e justamente a monstruosidade [de um] destino ameaçador 
se torna um pretexto para a inércia mental”

Se alguém desejar dialogar, informo a referência bibliográfica completa. 

Será que Hobsbawm ajuda?

“A destruição do passado 
- ou melhor, dos mecanismos sociais que 
vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas- 
é um dos fenômenos mais característicos e 
lúgubres do final do século XX. 
Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de 
presente contínuo, 
sem qualquer relação orgânica 
com o passado público da época em que vivem” 

Atual? Qu'est-ce que vous pensez?

nota: inspirado pela matéria de Sérgio Domingues, de 021018


terça-feira, 4 de setembro de 2018

Somos todos Bendengó!

Com a alma em cinzas e sob impacto de mais um golpe funesto e inominável à memória social, ao passado, à história, à Clio, à Mnemosýne, mãe das Musas, ao que de mais sublime o humano é capaz de erguer, resolvi escrever um pouco. Ainda cato palavras. Mas as palavras estão quentes, queimam-me a língua e me escapam, como labaredas.
Mas não, não quero me deter no que senti - e tantos sentiram - enquanto um nosso templo das Musas [mouseion] ardia, nossas peles ardiam, dissolvendo-se como um fóssil de 80 milhões de anos, como papiros milenares, como livros em tantas fogueiras ao longo da história, apagando-se como Luzia, que atravessou cerca de 13000 anos sem que lhe conseguissem roubar a luz. Todavia, por efeito de um golpe, um golpe de má-sorte, se é que me compreendem, Luzia não luz mais - ou, ao contrário, há de luzir ainda mais, em nossa memória, imaginação e vontade de lutar.
Sim, quero falar de Bendengó, o meteorito Bendengó, imensa pedra de raio que atravessou o tempo e o espaço sideral, os céus, a atmosfera terrestre e foi encontrado por um menino negro [um erê!], no sertão da Bahia, no final do século XVIII. Na tentativa de transportá-lo para a capital, rolou ribanceira e foi dar no leito de um rio. Ficou por lá por mais de cem anos. No final do século XIX, Pedro II ordenou uma complexa operação de engenharia para trazê-lo ao Museu Nacional, por via férrea, onde está até hoje. Sim, até hoje, pois Bendengó SOBREVIVEU ao atentado golpista.
Para nós, que estamos na resistência e na luta pela emancipação humana, não tenho dúvida, é um sinal: Somos todos Bendengó! A história não acabou, o passado não morreu, nossos ancestrais estão presentes, a luta continua!

nota: para quem é de Asè e cultua a ancestralidade, a mística e a memória, essa história está repleta de conexões simbólicas e sinais, a animar uma resistência secular. Somos todos Bendengó!

publicado em no Editorial de Mnemosine Vol.14, nº1, p. 1-2 (2018) 

terça-feira, 10 de julho de 2018

Na Europa, o escracho a Neymar continua...

Mas o Neymar, para eles, colonizadores e detentores do capital, nada mais é do que uma matéria prima que foi extraída de um país periférico e foi transformada em mercadoria de luxo, de alto rendimento para grandes empresas que exploram sua imagem e força de trabalho. 
São uns hipócritas: produzem [reduzem] o ser humano [se for oriundo de país periférico ou semi-periférico, melhor] como 'coisa' e depois, debochadamente, criticam o seu comportamento, exigem dele 'maioridade', maturidade, honestidade e dignidade - como se um sistema que aliena, reifica e explora fosse 'digno', 'honesto' e 'humanamente maduro'. 
É claro que Neymar e família embarcaram nessa 'numa boa', imaginam que estão 'levando vantagem' - afinal, conseguir sair de um lugar humilde em Santos para a riqueza da Europa é para poucos... Não percebem, tal qual a maioria dos brasileiros, que o processo de alienação e reificação do humano cobra um preço muito caro, seja espoliando a força de trabalho e produzindo a miséria em larga escala, seja desgraçando a subjetividade e destruindo a formação humana. 
Mas isso é bomba-relógio: em algum momento o sujeito Neymar entrará em forte crise. Arrisco até dizer que talvez já esteja, apesar da sua 'contraditória' conta bancária. 
Muitos dirão: 'crise com esse patrimônio financeiro eu queria'; 'quer trocar, Neymar?' 
Pois é, aí eu perguntaria a esses 'muitos', que são tantos: - Crianças, até quando desejareis isso? Quando ireis acordar do vosso sonho enganador? Até quando correreis na esteira para chegardes a lugar nenhum?
Com profundo pesar [e uma dose de 'justa ira' freiriana] noto que falam exaustivamente do 'comportamento' do Neymar em TODOS os media, em todas as redes, em TODOS os programas jornalísticos e esportivos brasileiros e que reproduzem e repetem memes até a saturação, que gargalham ou fazem caras de sérios, mas que NINGUÉM levanta as questões cruciais, as que realmente importam, as que poderiam, democraticamente, ajudar a construir um mundo um pouco melhor. Contudo, não me surpreendo: é assim que se promove a imbecilização e um certo voluntarismo servil. Inspirado pelo blog 'Pílulas Diárias', de Sérgio Domingues, eu diria, evocando João Saldanha: "Vida que segue!". Mas não sem citar Caio Prado Jr, deveras oportuno para pensar o tema:
“No seu conjunto, e vista no plano mundial e internacional, a colonização dos trópicos toma o aspecto de uma vasta empresa comercial (...) É este o verdadeiro sentido da colonização tropical, de que o Brasil é uma das resultantes; e ele explicará os elementos fundamentais, tanto no econômico como no social, da formação e evolução históricas dos trópicos americanos (...) Se vamos à essência da nossa formação, veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros; mais tarde, ouro e diamantes, depois, algodão e, em seguida, café para o comércio europeu. Nada mais do que isso”  

quarta-feira, 20 de junho de 2018

“Você faz faxina? Não, faço mestrado. Sou professora”

Não consigo ler uma matéria dessa sem sentir o coração, ora apertado, ora partido - em mais pedaços do que havia no cardio...
Se alguém, diante de um relato desse, nada é capaz de sentir; se não é capaz de partilhar a dor e de buscar desesperadamente uma forma de inserção na luta, formas de superação histórica e de comunhão, é porque já deixou a condição de 'humano' e não sabe...

terça-feira, 22 de maio de 2018


Produção social hodierna de sofrimento mental

O aumento progressivo do número de casos de ‘loucura’ entre a população urbana europeia a partir do século XVI decerto guarda relação com o violento êxodo rural que caracterizou a passagem do modo de produção feudal ao capitalista, marcada pela desapropriação do lugar de cultivo, pela perda do chão.

A desterritorialização a que foi submetida grande parcela da população camponesa deve ter sido devastadora do ponto de vista psicossocial.

Do ponto de vista econômico e social, os efeitos foram óbvios e notórios, haja vista o aumento significativo de pessoas sem terra, sem ocupação (logo denominados ‘desempregados’, força de trabalho potencial sem emprego, sem vaga no mercado de trabalho capitalista), mendigos e biscateiros, entre outros pequenos delinquentes que passam a grassar no espaço urbano, de forma ainda mais expressiva a partir da Revolução Industrial.

A passagem – forçada, porém por muitos também ‘desejada’, por efeito da propaganda burguesa que ‘anunciava’ a libertação de vínculos feudais que não mais se sustentavam e acenava com uma nova ‘esperança’ para os pobres – do tempo da produção rural para o tempo da produção urbana industrial (tempo histórico do capital) deve ter sido, sem trocadilho, avassaladora...

É preciso pensar a produção social hodierna de sofrimento mental em relação com a 4ª Revolução Industrial (amplo emprego da robótica; convergência de tecnologias digitais, físicas e biológicas; império da engenharia genética e da neurotecnologia etc), que se faz acompanhar de violenta “desapropriação”, senso de obsolescência da força de trabalho e espoliação de direitos trabalhistas, sociais e humanos – enfim, uma ainda mais intensa desterritorialização que se dá fortemente carregada de alienação simbólica, subjetiva, imaterial. O emprego aqui da palavra ‘carregada’ expressa bem o peso dos grandes meios privados de produção da comunicação social e das redes sociais manipuladas por grupos de interesse econômico nesse processo.

A tarefa dos que pensam e lidam com processos de subjetivação e com o sofrimento psíquico será cada vez mais árdua e terá de ser cuidadosamente organizada ética e politicamente, sob pena de sermos reduzidos, num futuro não muito distante e de certo modo já muito presente, perdoem-me a metáfora que aliás não está tão ‘fora’ assim, a elementos descartáveis de uma grande rede a operar em ‘nuvem’.

A nova ofensiva neoliberal em curso, perceptível de forma dramática em nosso país, está aí a preparar o terreno.

Alexandre Magno Teixeira de Carvalho
apresentado no V Congresso Brasileiro de Psicologia: ciência e profissão, 2018
A dialética da 'conservação da dor' (matéria anterior, indo mais fundo).

A alienação de consciência é - a um só tempo - um processo subjetivo e histórico que corresponde, de forma direta, ao processo de alienação do trabalho e se relaciona, inexoravelmente, à reificação. Portanto, mais do que tentar estabelecer uma distinção “hierárquica” entre história e subjetividade, importa perceber a relação dinâmica dialética - constitutiva do ser social - que entre as duas dimensões se instaura.

Na forma histórica do sistema do capital, assume a face monstruosa do processo de apropriação privada dos meios de produção da base material da sociedade: a privatização dos meios de produção, privação de classe, a condição sine qua non da alienação social. 

As formas de reprodução do metabolismo social impedem a espécie humana de desenvolver suas potências criativas plenamente. Para o jovem Marx, “O animal produz apenas sob o domínio da carência física imediata, enquanto o homem produz mesmo livre da carência física, e só produz, primeira e verdadeiramente, na liberdade [em relação] a ela”. 

Desenvolver plenamente a potência criadora do humano não é privilégio da classe dominante (como uma visada superficial poderia iludir). Não se trata de a classe trabalhadora reivindicar o lugar da classe dominante, o seu status: os membros da classe dominante não escapam do processo de alienação geral que fomentam e, justo lá onde pensam se tornarem mais ricos e “livres”, mais medíocres e “miseráveis” se tornam (afundam igualmente na miséria humana dos que têm o trabalho por eles aviltado, explorado, dominado), num movimento dialético que não os poupa - tenham consciência ou não da condição de agentes da alienação do trabalho, não importa.

Nesse movimento dialético, todos são presas do mesmo processo de alienação geral

Mas, dirá o leitor, os proprietários dos meios de produção e das grandes carteiras do mercado financeiro obtêm suas ilusórias compensações (“benefícios secundários”): viagens, consumo de luxo (inclusive de relações amorosas), acesso a prazeres sensoriais à maioria inacessíveis etc. No sistema do capital, a 'distribuição dos benefícios' (Wallerstein) é violentamente desigual. Sabemos disso.

A dor moral que o trabalhador sente em desconfiança de si mesmo é expressão subjetiva da forma como os seres humanos se relacionam no modo de produção da economia; ou seja, como produzem e reproduzem a vida sobre a Terra – tenha-se ou não consciência desse processo. 

Não é razoável que uma pequena fração da população humana se aproprie dos meios de produção da base material da sociedade e controle, por conseguinte, os meios de produção e reprodução da vida humana ao passo que uma imensa fração possui apenas sua força de trabalho potencial. Menos razoável e ainda mais injusto é que a força de trabalho se mantenha apenas como 'potência', impedida de se realizar fora do “mercado de trabalho”: igualar trabalho humano a emprego reduz e degrada o trabalho humano e, consequentemente, a sociedade.

Um modo de reprodução social (sociometabolismo) baseado em classes sociais será sempre irremediavelmente (porque não remediável) injusto e desigual em seus fundamentos. Ambas as classes sociais estão dialeticamente ligadas nesse processo de alienação e somente com a transformação profunda das relações sociais de produção, com a extinção das classes sociais, é que a espécie humana poderá se libertar desse jugo desigual.

Alexandre MT de Carvalho

publicado em https://www.circulodegiz.org/post/conservador





Sobre o sentido da palavra 'conservador'

A única coisa que o conservador realmente conserva é a dor - a dor dos outros, é claro.

Dentre os vários sentidos da palavra "conservação", destaca-se a ideia de preservação, abrigo, estabilidade, manter em bom estado, preservação contra dano - que ironia significante... Nesse sentido, o emprego da palavra 'conservador' para designar as figuras que conhecemos como tais (por intermédio da história social e das suas ações políticas) é um abuso semântico.

O que os 'conservadores' concretizam, na prática, de forma especialmente aguda e obtusa em nosso país, é o ataque ao trabalho humano de criação artística, intelectual, cultural; a extinção do contraditório; a supressão de possibilidades diversas de realização da vida humana; a manutenção da produção destrutiva do capital e a negação de toda possibilidade de emancipação política e humana.

Os conservadores realizam, contraditoriamente, somente os antônimos da palavra 'conservação'. A correção desse abuso semântico é uma urgência. Afinal, como nos lembra Mário Maestri, “A língua é um espaço da luta de classes”. Logo, não se pode conservar, no bom sentido da palavra, os conservadores aí como estão, no campo de batalha da luta de classes, se multiplicando e se fortalecendo nos seus ofícios de alienação do ser social, de destruição da vida e de 'conservação' da dor - dos outros, é claro...

Alexandre MT de Carvalho

publicado em https://www.circulodegiz.org/post/conservador