quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Tempo reificado (ou Mészáros e Galeano contra a vida passa em velocidade 4G)

Tempo reificado (ou Mészáros e Galeano contra "a vida passa em velocidade 4G")

O tempo que te roubam
Não é achado
É irremediavelmente perdido
One way
Não tem retorno
O tempo que te roubam
Subtraem de muitas maneiras
Tem por destino a carteira
De ações, de crédito, do bolso do paletó
Do outro, do investidor, do patrão
O tempo que te roubam
Não é só teu – você nem sabia
É da história
Deveria ser de quem trabalha
Do filho de quem trabalha
Do amor de quem trabalha
Do sonho de quem trabalha
Do desejo de quem trabalha
Da verve de quem trabalha
Da luta de quem trabalha
Do livro de quem trabalha
Da cama, do leito, da mesa
Da árvore, do debaixo da árvore
Da beira do rio, do rio, do mar
Da praia, da mata, da montanha
De quem trabalha
Um fruto de quem trabalha
Um fruto lento e espesso
Um fruto com gosto
Um fruto sem veneno
Um fruto lento
Se desejado
Um fruto mais espesso
Se compartido
Um fruto ainda mais, mais
Se de quem trabalha é o fruto
Da humanidade é o fruto
O fruto é ralo
O tempo é escasso
Quando o trabalho do tempo
O tempo do trabalho
E o tempo do não trabalho
É todo comprado barato
Consumido até o talo
Saldo, saldão, liquidação
Líquida ação
Liquida ação
O liquidificador do patrão
Patrão, saldo, tudo mais barato
Tudo mais vagabundo
Tudo mais rápido
Tudo mais degradado
Veneno consumido
Simbolicamente, concretamente
Até o fazer nada:
Para fazer nada é preciso dinheiro
- Precisamos ganhar mais dinheiro!
Vamos transformar em mais dinheiro
O trabalho do homem
E da mulher
E da criança
De suas forças vamos tirar o tempo
E o trabalho se enfraquece sem o
Tempo... O tempo do trabalho
O tempo histórico
Aprisionado, encarcerado, apodrecido, reproduzido
Movimentado
F = m.a
Aceleração = força sobre a massa
Aumentá-la até tender ao infinito
Pesar sobre a massa
Acelerar as massas...
Empurrá-las rápido abismo abaixo
Em = Ec + Ep
À beira do abismo
A energia potencial é máxima
Para o capital
Mas o capital não quer só a potência
Quer consumir a força
À força
Acelerá-la mais, mais, mais
Quer a energia cinética máxima
A energia cinética máxima que
Um corpo adquire quando chega
Ao chão depois de um voo cego livre
Um cego livre
Cegos e livres
Corpos no chão
Velocidade máxima
Potencial mínimo
Velocidade zero
Tempo arrasado

Time of death.

A história faz o tempo
A humanidade faz a história

O tempo da história tem peso
Nós o carregamos, havemos de
Carrega-lo
Mas não nas tomadas do capital
Velocidade da luz
Nossa matéria não é dinheiro
E = m.c²
O capital não cessa? O capital não
Para? O capital acelera
g, 2g, 3g... 4G!
Mais, plus, diferencial, valor
Quem dá mais? Quem dá mais?
Quem vai levar? Qual é o preço? Qual é o lucro?
Não, não estou à venda, obrigado.
Mentira. Sou posto à venda.
Puseram a venda
Meus olhos não veem
O
Abismo a velocidade
Em que me aproximo do abismo
A estupidez de nossa queda.
Não faz sentido.
Faz-se d’, mas sentido não se faz.
Valor é lucro, nada mais.
Nada mal, diz o senhor.
Sempre foi assim, sempre será
Quem é que diz?
Não faz sentido
Don’t make sense
Make sense
Vamos reconstruir o sentido
Das coisas
Vamos retomar nossas
Palavras
Vamos salvar nossas vidas
Vamos recuperar nossas almas
Retomar as ideias, fazê-las concretas
Nossos corpos
Vamos expropriar os donos do tempo que nos foi
Expropriado
Tomá-lo de volta.
Mas ele não volta.
Então vamos refazê-lo
Vamos fazer história.


Por Alexandre M T de Carvalho, novembro de 2014


3 comentários:

Unknown disse...

Em tempos de 4G, trabalho em uma ilha 1G... Talvez ainda F! Acelero, aperto, o tempo...cada vez mais fluido... Meus pais são de tempos sólidos? Cinemática ... Movimento para lá e acolá, pego a barca, pego a bici, caminho... Procurando, buscando... Sigo.

Alexandre M T de Carvalho disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alexandre M T de Carvalho disse...

Você, meu amigo, acelera porque é acelerado, pressionado, comprimido, oprimido pelo tempo que o capital tenta nos impor em todas as dimensões da vida humana [tempo histórico do capital]. O capital financeiro ganhou um baita poder de 'abstração' - do próprio capital, do trabalho, do ser social - em uma escala que Marx podia pressentir (e, de fato, pressentiu), mas não chegou a chegou a viver no seu tempo (viveu o seu tempo e nos leva, até hoje, à raiz e além). Lembrei-me também da epistemologia do espaço e do tempo, de Milton Santos, que você decerto conhece melhor do que eu. A alienação, hoje, atinge níveis paroxísticos. Seus pais sentem isso. Podem não ter lido que "tudo que é sólido (...) se desmancha no ar", mas sentem que a "subversão contínua dos modos de produção, esse abalo constante de todo sistema social, essa mutação e insegurança perpétuas distinguem a época burguesa de todas as precedentes" [Manifesto]. A velocidade em que isto se dá hodiernamente, [des]graças ao desenvolvimento vertiginoso da telemática e da informática, é espantosa; é a velocidade da luz em que o capital pode se valorizar [mais] pelos meios financeiros virtuais de aplicação, valorização e reprodução. O capital "se desmancha" para triunfar. Contraditoriamente, nos desmanchamos com ele. A tua geração também sente o desmanche, e fantasia [crê, às vezes infantilmente, regressivamente] que pode seguir a mesma lógica - seja para enfrentá-lo [o capital], seja para se entregar a ele [e a ela, a lógica]. O movimento é essencial. Mas é preciso saber parar, até mesmo na encruzilhada, para que aprendamos como e para onde ir. Abraços e saudações de resistência da encruzilhada...

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