quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Sobre CÉUS (de Wajdi Mouawad, direção de Aderbal Freire Filho)

            Sobre CÉUS (de Wajdi Mouawad, direção de Aderbal Freire Filho)

        Dédalo estraçalhado, explodido. Da obra do arquiteto, da obra de arte que oprime, poucos acham a saída. Teseu, com o fio do amor de Ariadne e Dédalo-Ícaro com “suas asas de pombo / coladas às costas com mel e dendê / aguentam por um fio”. Mas não há mais heróis dispostos a nos mostrar a saída e a pagar as penas que o trabalho de fuga do labirinto impõe: enfrentar o Minotauro é fácil perto da imensidão do Oceano e da angústia da queda sem fim de Egeu, o pai amado. O esquecimento das velas brancas desfraldadas não exime o herói da dura pena. Dédalo até sabe o caminho, há somente um: pelo alto. Mas não tão alto, Ícaro, não tão alto, adverte o Pai inutilmente. É tarde, tarde demais. Caiu Ícaro escadaria abaixo partindo-se em mais pedaços do que houvera no vaso. Partiu-se, descuidado. Teseu e Dédalo e a Moira e a dor infinita do alto, a angústia do abismo [“deus ao mar o abysmo e o perigo deu / Mas nelle é que espelhou o céu”], do mar em que Egeu mergulha; do espelho em que Egeu, ainda sem nome, nelle se olha e não a imagem do filho descuidado. Teseu e Ícaro. Destinos opostos. Teseu condenado à beira do abismo. Teseu democrata. Ícaro anarquista, de asas grandes e cera quente. No teatro romano o ator sincero atua sem cera. Não chega a decolar. A decolagem é o prenúncio da queda no incomensurável abysmo do sem fim. Dédalo quer sair de dédalo e de Dédalo. Dédalo sabe voar baixo – mas, a troco de quê? Dédalo criou a obra bela e grandiosa, a obra violentamente opressiva, a obra da qual se pode sair pelo alto. Mas, cuidado com a linha de fuga. Dédalo traçou a hipotenusa. Ícaro, a vertical do cateto. A liberdade de Ícaro não cabe dentro do triângulo de Pitágoras, cuja área é metade do quadrado; quadrado dividido ao meio, pela hipotenusa partido – e ao mesmo tempo ligado. Ícaro cai. Egeu dá nome ao mar abysmo da angústia que ainda não é a de Pessoa. É outra angústia, pois a angústia é filha do tempo. É humana, portanto, histórica. A angústia não se repete no tempo e nos tempos, mas todo e qualquer humano a reconhece ou pressente, ainda que negue: é o momento que precede o cair no vazio infinito, o dissolver-se na água, o explodir-se de tão cheio. O explodir-se de tão cheio! Depois de milênios de criação e opressão e de séculos de destruição criativa e criação destrutiva exponencial, não há mais saída pela linha tênue que nos ligaria à saída. Não há saída fora do labirinto. Não há fora. Ícaro sabia. O pai ou o filho, um dos dois morre. A amada tem em suas mãos o novelo que leva à saída. Ela doa porque ama. Mas não há saída. O labirinto é do tamanho do mundo [“grandes são os desertos / e tudo é deserto”]. É o Processo de Kafka: o labirinto de paredes duras, sem continência, sem dobra, não tem fim, nem mesmo fora dele. Josef K se perde na angústia, sem linha e sem asas (nem mesmo as de um Samsa metamorfoseado). Sem saída. Sem crime. Saída perdida. Mouawad explode toda a obra, dentro e fora do labirinto-processo sufocante, sem dobra. A explosão libera o ar de sua cadeia monótona e esmagadora, mas não há mais heróis. Apenas reféns e algozes, numa repetição doentia, compulsiva, compulsivamente histórica, historicamente compulsiva. Mouawad quer explodir tudo isso, quer uma síntese que recrie sem destruir a memória, mas sabe que ela foge na linha do horizonte, como um cordão umbilical definitivamente cortado.  Mouawad quer, como nós, respirar.


Alexandre Magno Teixeira de Carvalho, 07/10/16, antes de acordar.

Um comentário:

Alexandre M T de Carvalho disse...

"A escrita foi, em sua origem, a voz de uma pessoa ausente" Freud, 1929.

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