Sobre CÉUS (de Wajdi Mouawad, direção de Aderbal Freire Filho)
Dédalo
estraçalhado, explodido. Da obra do arquiteto, da obra de arte que oprime,
poucos acham a saída. Teseu, com o fio do amor de Ariadne e Dédalo-Ícaro com
“suas asas de pombo / coladas às costas com mel e dendê / aguentam por um fio”.
Mas não há mais heróis dispostos a nos mostrar a saída e a pagar as penas que o
trabalho de fuga do labirinto impõe: enfrentar o Minotauro é fácil perto da
imensidão do Oceano e da angústia da queda sem fim de Egeu, o pai amado. O
esquecimento das velas brancas desfraldadas não exime o herói da dura pena.
Dédalo até sabe o caminho, há somente um: pelo alto. Mas não tão alto, Ícaro,
não tão alto, adverte o Pai inutilmente. É tarde, tarde demais. Caiu Ícaro
escadaria abaixo partindo-se em mais pedaços do que houvera no vaso. Partiu-se,
descuidado. Teseu e Dédalo e a Moira e a dor infinita do alto, a angústia do
abismo [“deus ao mar o abysmo e o perigo deu / Mas nelle é que espelhou o
céu”], do mar em que Egeu mergulha; do espelho em que Egeu, ainda sem nome,
nelle se olha e não a imagem do filho descuidado. Teseu e Ícaro. Destinos
opostos. Teseu condenado à beira do abismo. Teseu democrata. Ícaro anarquista,
de asas grandes e cera quente. No teatro romano o ator sincero atua sem cera.
Não chega a decolar. A decolagem é o prenúncio da queda no incomensurável
abysmo do sem fim. Dédalo quer sair de dédalo e de Dédalo. Dédalo sabe voar
baixo – mas, a troco de quê? Dédalo criou a obra bela e grandiosa, a obra
violentamente opressiva, a obra da qual se pode sair pelo alto. Mas, cuidado
com a linha de fuga. Dédalo traçou a hipotenusa. Ícaro, a vertical do cateto. A
liberdade de Ícaro não cabe dentro do triângulo de Pitágoras, cuja área é
metade do quadrado; quadrado dividido ao meio, pela hipotenusa partido – e ao
mesmo tempo ligado. Ícaro cai. Egeu dá nome ao mar abysmo da angústia que ainda
não é a de Pessoa. É outra angústia, pois a angústia é filha do tempo. É
humana, portanto, histórica. A angústia não se repete no tempo e nos tempos,
mas todo e qualquer humano a reconhece ou pressente, ainda que negue: é o
momento que precede o cair no vazio infinito, o dissolver-se na água, o
explodir-se de tão cheio. O explodir-se de tão cheio! Depois de milênios de
criação e opressão e de séculos de destruição criativa e criação destrutiva
exponencial, não há mais saída pela linha tênue que nos ligaria à saída. Não há
saída fora do labirinto. Não há fora. Ícaro sabia. O pai ou o filho, um dos
dois morre. A amada tem em suas mãos o novelo que leva à saída. Ela doa porque
ama. Mas não há saída. O labirinto é do tamanho do mundo [“grandes são os
desertos / e tudo é deserto”]. É o Processo de Kafka: o labirinto de paredes
duras, sem continência, sem dobra, não tem fim, nem mesmo fora dele. Josef K se
perde na angústia, sem linha e sem asas (nem mesmo as de um Samsa
metamorfoseado). Sem saída. Sem crime. Saída perdida. Mouawad explode toda a
obra, dentro e fora do labirinto-processo sufocante, sem dobra. A explosão
libera o ar de sua cadeia monótona e esmagadora, mas não há mais heróis. Apenas
reféns e algozes, numa repetição doentia, compulsiva, compulsivamente
histórica, historicamente compulsiva. Mouawad quer explodir tudo isso, quer uma
síntese que recrie sem destruir a memória, mas sabe que ela foge na linha do
horizonte, como um cordão umbilical definitivamente cortado. Mouawad quer, como nós, respirar.
Alexandre Magno Teixeira de Carvalho, 07/10/16, antes de
acordar.
Um comentário:
"A escrita foi, em sua origem, a voz de uma pessoa ausente" Freud, 1929.
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