A obsolescência programada pelo capital afeta as relações sociais de produção. Se toda mercadoria deve ser rapidamente descartada (para o capital hodierno, pouco importa o seu valor de uso e a queda em desuso) para que uma nova seja adquirida no mercado, o mesmo passa a se dar com a mercadoria força de trabalho (FT): a mercadoria FT também passa a ser 'feita' para não durar, rapidamente se torna obsoleta (descartada ou adoecida, às vezes mortalmente) por efeito de uma exploração do trabalho que se torna cada vez mais sofisticada. No estádio atual do MPC, as coisas são feitas para não durarem. Essa operação (modus operandi) rebate em todas as esferas da vida social, não somente na relação emprego (relação social que define um comprador que consome a mercadoria FT e um vendedor que se sujeita alienar). Com os rebatimentos na subjetividade, assim se dá também com as relações afetivas (amizades, namoros, diferentes formas de relações sexuais etc.).
A aceleração do processo de produção-circulação-consumo aumenta vertiginosamente a velocidade e diminui a duração do tempo no cotidiano (efeito do tempo histórico do capital). Quem controla o tempo, hoje, é o capital.
Na década de 1970, por exemplo, o telefone era fixo, era também um objeto de decoração, era durável, era caro. Hoje, é móvel, descartável e relativamente barato. Digo relativamente barato porque não é de fato tão mais barato do que o telefone do passado recente, pois os interesses do mercado financeiro cresceram na transação de tal forma que foi elevada a potência do fetiche do financiamento – “Baratinho, tanto por mês”; dizem os incautos. Portanto, tal qual os telefones (o primeiro telefone de minha mãe, esperando mudo e impávido sobre a mesinha por meses a fio a chegada da linha, do tom de discar), a FT tornou-se ainda mais móvel, descartável e barata (absoluta e relativamente).
E assim nos tornamos, sem nos darmos conta, em pouco mais de três décadas, por um processo de aprofundamento da obsolescência, seres humanos profundamente marcados pela mobilidade do capital e violentamente significados pelo descartável (300717).
Alexandre MT de Carvalho
4 comentários:
O conceito de modernidade líquida do sociólogo polonês Zygmunt Bauman se resume a essa obsolescência e subjetividade descrita neste texto. Em uma entrevista para o Programa Milênio da Globo News, Bauman explicou que o século 19 foi a época da modernidade sólida e da sociedade industrial e explicou a modernidade líquida: “Hoje vivemos na modernidade líquida e na sociedade pós-industrial do consumismo, e a passagem da sociedade de produção para a sociedade de consumo foi uma coisa muito poderosa e importante. Mudamos o foco da construção das bases do poder da sociedade sobre a natureza para o contrário: para a cultura do imediatismo, do prazer, da individualização... de identificar a visão da felicidade com o aumento do consumo...”
Mais a frente, nesta mesma entrevista, Bauman fala sobre o capital: “O mercado é explícita e brutalmente incapaz de reparar os danos que causa. Ele cria problemas, mas não consegue resolvê-los... Para isso, é necessário outro tipo de instituição. O mercado é poder puro liberado de qualquer limitação. Poder significa a habilidade de realizar coisas. O mercado é ótimo nisso, em criar demanda para seus produtos, em distribuir fundos do Brasil para a África, porque a mão de obra lá é mais barata... Ele tem o poder real, que pode influenciar as suas condições de vida, a de seus filhos, de seus netos, de seus bisnetos que ainda não nasceram... Isso ele faz, mas o poder sem controle é algo muito perigoso. Ele traz lucros transitórios para algumas pessoas, mas traz muitos problemas para a grande maioria. Para manter o poder sob controle e evitar que o mercado se autodestrua, a política é necessária. A política é a habilidade de decidir quais coisas devem ser feitas.”
Em outro vídeo do Youtube (https://www.youtube.com/watch?v=LcHTeDNIarU ), Bauman fala sobre amizade nas redes sociais: “... A rede é feita e mantida viva por duas atividades diferentes. Uma é conectar e a outra é desconectar. E eu acho que a atratividade do novo tipo de amizade, o tipo de amizade do Facebook, como eu a chamo, está exatamente aí... É fácil conectar, fazer amigos. Mais o maior atrativo é a facilidade de se desconectar.” Desse modo, as relações interpessoais, no geral, estão se comportando como redes.
Como acreditar ou confiar em algo programado para te decepcionar? Mudando subjetivamente suas percepções de verdade e confiança, colocando nelas um prazo de validade figurado como mecanismo de defesa contra a frustração. Caminhou-se da beirada do eterno até à orla do descartável, não somente os produtos "compráveis", mas também nas relações de trabalho (alta rotatividade de funcionários, seja mesmo por contratos curtos ou por condições insuportáveis à mais de poucos meses) e nas relações afetivas quando se acredita que "não há como consertar", ou que o preço pago por isso por isso, a energia a ser investida, será maior do que adquirir uma nova relação com uma pessoa "nova". Essa alternância constante, ao menos para mim, distancia a ideia de fixação ou pertencimento a um espaço, a criação de raízes, criando no lugar disso uma ideia nômade de estabilidade.
Com o mundo cada vez mais atual e dinâmico as mercadorias são trocadas por museus de grandes novidades, parafraseando Cazuza, a industria busca sempre trazer "melhorias" em algo que já é suficientemente bom mudando detalhes que são apresentados como incríveis porém são totalmente dispensáveis e adiciona um preço altíssimo para agregar um valor que nos fazem acreditar que existe, e se você não acreditar, não tem problema, atualizações virão porém você não receberá já que ela foi feita para ser suportável apenas pelo novo. Isso se volta para as relações humanas, onde a subjetividade dá lugar aos padrões pré estabelecidos pelo capital e todo mundo quer estar conectado de alguma forma e por dentro de tudo, atualizado, gerando e produzindo sempre novidades ou então não está de acordo, não é certo, mas quando paramos para analisar a fundo é sempre algo que na verdade já existe/existiu, mas que foi vendido de uma forma diferente. Desde nossos primórdios usamos as relações ao nosso favor, a comunidade como forma de sobrevivência e estabelecimento, mas não nos damos conta de que é a nossa subjetividade que cria o coletivo e que é a perpetuação da nossa história e aprendizados que evita hoje a cometer os mesmos erros do passado, ou pelo menos deveria.
Essa obsolescência programada que hoje afeta não somente as relações de produção, como também as sociais e pessoais, pode ter tido origem nos interesses do capital, mas, como a Clara bem comentou citando Bauman, eu acredito que isso já tenha se tornado um problema fora de controle. Tenho a impressão de que as mesmas tecnologias que permitiram a globalização e aproximaram virtualmente pessoas tão distantes fisicamente, na verdade, também afastaram emocionalmente pessoas muito próximas. Antigamente, o número de pessoas que alguém poderia conhecer durante a vida era muito mais limitado. Portanto, as pessoas se empenhavam mais em construir boas relações. A facilidade de se "conhecer" pessoas novas está fazendo com que cada vez mais se deixem de valorizar as relações antigas, tornando amigos, amantes, namorados, pessoas, descartáveis.
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