“A
pétala da primeira palavra que, um dia,
o filho deixará cair, dizendo-a”
o filho deixará cair, dizendo-a”
[Antonio
Carlos Villaça]
O tempo implacável passa, impávido, para as nossas células.
Passa, incólume, por entre as células. O tempo histórico do capital nos tritura,
provoca percepções estranhas nas entranhas em que se apercebe o tempo, a
passagem do tempo.
É um tempo entre.
Prenhe de si mesmo, o tempo inteiro narcísico, e de mais
nada. Da prenhez do nada, nada pode nascer. Como negar o nada? Como negar o
nada para que dele uma pétala nasça? E da pétala uma gota de orvalho? E da gota
de orvalho uma chuva de verão? E da chuva de verão nossos cabelos molhados e o
rosto voltado para o alto com um sorriso de bebê que amamentou feliz estampado?
Alto, mais alto, um pouco mais, plus... não, não digo o Plus
ultra do colonizador espanhol; também não é o mais-valor do capital...
terei sido eu, desde sempre, o idiota antipragmático para quem a palavra
ultramar significa apenas e tão somente além-mar? Ao mar, despidos de naus!
O que eu e você, habitantes e parasitas raramente saprófitos
desta crosta terrestre há mais de meio século, temos a fazer? O que fazer diante
da mãe que não há mais a plantar a flor da primeira palavra? O que fazer com
essas máquinas eletrônicas luminosas e telúricas (porque feitas de minérios, de
entranhas da Terra) que nos cegam a ponto de não percebermos que tudo que cai
em nossas mãos é telúrico? O que fazer desta Terra?
Cento e quinze anos depois, a pergunta rodou mundo. O mundo
mudou, o capital cresceu para dentro a dizimar o fora todo dentro. Por entre o
que resta, a questão permanece: o que fazer?
Alexandre MT de Carvalho
publicado em https://www.circulodegiz.org/post/a-p%C3%A9tala-da-primeira-palavra
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